Pondé explica por quê CLT virou xingamento entre os jovens

Pondé CLT Jovens

Nas redes sociais, “virar CLT” já aparece como piada, ameaça e até xingamento. Para uma parte da geração Z, o emprego de carteira assinada, antes um objetivo de vida, passou a ser sinônimo de rotina pesada, chefe e salário que demora a crescer. Em um debate sobre o tema, o filósofo Luiz Felipe Pondé e a socióloga Isadora Brizola analisaram o que está por trás dessa revolta em uma entrevista no programa Linhas Cruzadas da TV Cultura.

Um símbolo que mudou de sentido

A CLT surgiu em 1º de maio de 1943, no governo de Getúlio Vargas, quando o país se industrializava e muita gente deixava o campo para viver nas cidades. A lei organizou direitos e deveres, como a jornada de oito horas, as férias anuais e o salário mínimo. Segundo Pondé, em um contexto de trabalhadores com pouca instrução e muita exploração, ela cumpriu um papel importante ao criar parâmetros de proteção, e ainda hoje tem função, principalmente em trabalhos mais precarizados.

O problema, na avaliação dele, é que a relação com o trabalho mudou. A CLT envelheceu mal, em parte justamente porque o trabalho mudou.

Por que os jovens desconfiam

Pondé aponta vários fatores que se somam. O primeiro é a moda das redes, em que viralizam histórias de quem diz ter prosperado sem estudar e sem carteira assinada. O segundo é a sensação de que subir na carreira dentro de uma empresa é difícil e de que os salários estão achatados. O terceiro é o crescimento do mundo digital depois da pandemia, que abriu novas possibilidades de prestar serviços por conta própria.

Há ainda a imagem de que o CLT é “careta”: alguém que segue regras, tem chefe, enfrenta hierarquia e sonha com um FGTS que só vai render daqui a décadas. Ele reconhece que há um grau de ilusão nisso, já que só alguns chegam ao topo, tanto dentro das empresas quanto empreendendo sozinhos. Mas diz que também há quem consiga crescer e criar negócios por conta própria.

Liberdade tem preço

Um ponto que Pondé destaca é que a liberdade de não ter chefe exige maturidade. Quem trabalha por conta própria pode escolher não trabalhar num dia, mas arca com as consequências, e se adoecer fica sem proteção. Para ele, o setor sem CLT é onde o capitalismo se sente mais à vontade, porque ali a pessoa produz o tempo todo.

Ele cita o sociólogo Zygmunt Bauman para falar de uma tendência de abrir mão de segurança em nome de liberdade, e lembra que a segurança prometida pelas empresas também não é garantida: uma companhia pode ser vendida e demitir muita gente. A discussão ainda passou pelo livro O privilégio da servidão, do sociólogo Ricardo Antunes, que descreve o trabalhador de aplicativo como alguém que acredita ser livre por não ter patrão, mas é comandado por um algoritmo e precisa trabalhar sem parar para ganhar.

O que dizem os trabalhadores

O programa também ouviu pessoas que vivem os dois lados. Um trabalhador de carteira assinada disse que, apesar de nem tudo ser perfeito, prefere o valor fixo no fim do mês e o FGTS. Um motoboy autônomo, formado em logística e com pós-graduação, contou que recusou propostas por pagarem pouco e que pretende abrir a própria empresa. Já um motorista de aplicativo afirmou que gosta de decidir quanto quer ganhar e que a progressão de carreira lenta não combina com o imediatismo dele.

Pondé vê nisso um ponto de equilíbrio: não precisa haver polarização. Segundo ele, a escolha tem a ver com perfil e história de vida. Quem busca segurança tende a preferir a CLT, e quem acredita no próprio esforço tende a preferir a autonomia.

A visão da socióloga

Isadora Brizola afirma que a mudança vem de um movimento maior. Ela lembra que, a partir de 2015, a sociologia passou a olhar para o chamado precariado, um grupo de trabalhadores sem direitos assegurados e com vínculos informais. Em sua análise, a informalidade atende a um discurso de flexibilidade, individualização e mobilidade social, e o trabalho tradicional não oferece essa perspectiva.

Ela também fala do outro lado: a individualização enfraquece a luta coletiva, e a pejotização, ou seja, a contratação como pessoa jurídica, pode ser vantajosa para as empresas, já que o custo é menor. Segundo ela, isso pode ser uma precarização disfarçada de empreendedorismo. Pondé complementa que muitos PJs são, na prática, apenas profissionais que saem mais baratos para quem contrata.

Propósito e a conta do dia a dia

O debate citou uma pesquisa da Deloitte de 2024, segundo a qual 86% dos jovens da geração Z consideram essencial ter senso de propósito no trabalho. Pondé ponderou que essa discussão é típica de uma parcela da população que pode se dar a esse luxo, e que para a maioria dos jovens brasileiros o significado do trabalho é poder comer três vezes ao dia. Ao mesmo tempo, reconheceu que o desejo de não ter um chefe autoritário também é um tipo de propósito.

O humor e o recado para as empresas

Para encerrar, o programa exibiu o vídeo da influenciadora e comediante Luana Zucoloto, que faz piada com as estratégias das empresas para agradar os funcionários, como salas de descompressão e pebolim. Pondé concordou com o fundo da crítica: muitas empresas tentam resolver o estresse com iniciativas que infantilizam as pessoas, quando o que os funcionários querem, segundo ele, é ganhar mais.

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Dois modelos, um mesmo país

No fim, a conclusão de Pondé é que há espaço para os dois modelos. Muita gente passa a vida na CLT, e há quem junte dinheiro e vire autônomo. Também há quem, aos 45 ou 49 anos, seja demitido e use o FGTS para abrir um negócio. Para ele, a onda de mudança na relação com o trabalho veio para ficar.

Quer ver a conversa completa? Assista ao vídeo original em Link do vídeo, no programa LINHAS CRUZADAS da TV Cultura.